Domingo no Carmelo

Domingo de Ramos na Paixão do Senhor

«Rei dos judeus»

«Tu és o Rei dos judeus?». Jesus respondeu: «É como dizes»… Pela festa da Páscoa, Pilatos costumava soltar-lhes um preso à sua escolha… «Quereis que vos solte o Rei dos judeus?»… «Então, que hei-de fazer d’Aquele que chamais o Rei dos judeus?»… Depois de ter mandado açoitar Jesus, entregou-O para ser crucificado… «Salve, Rei dos judeus!»… O letreiro que indicava a causa da condenação tinha escrito: «Rei dos Judeus». «Salvou os outros e não pode salvar-Se a Si mesmo! Esse Messias, o Rei de Israel, desça agora da cruz, para nós vermos e acreditarmos». Às três horas da tarde, Jesus clamou com voz forte: «Eloí, Eloí, lemá sabactáni?» que quer dizer: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?»… Jesus, soltando um grande brado, expirou… O centurião… exclamou: «Na verdade, este homem era Filho de Deus».

«No momento da morte ficou também aniquilado na alma, sem nenhuma consolação e alívio, deixando-o o Pai assim em íntima secura, segundo a parte inferior. Pelo que teve necessidade de clamar dizendo: Meu Deus, meu Deus, porque me desamparaste? [abandonaste] (Mt 27, 46). Este foi o maior desamparo [abandono] sensitivo que teve na sua vida. E assim, nele fez maior obra que a tinha feito em toda a sua vida com milagres e obras, nem na terra nem no céu, que foi reconciliar e unir o género humano por graça com Deus. E isto foi, como digo, no tempo e no momento em que este Senhor esteve mais aniquilado em tudo; a saber, quanto à reputação dos homens, porque, como o viam morrer, antes faziam burla dele que o estimavam nalguma coisa; e quanto à natureza, pois nela se aniquilava morrendo; e quanto ao amparo e consolo espiritual do Pai, porque, naquele tempo O desamparou para que puramente resgatasse a dívida e unisse o homem com Deus, ficando assim aniquilado e assim reduzido como a nada» (S. João da Cruz).

«Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?» é a única invocação pronunciada por Jesus na cruz. Estas palavras conduzem-nos ao coração da paixão de Cristo, ao ponto culminante dos sofrimentos que padeceu para nos salvar. O abandono de Jesus é o sofrimento mais dilacerante do espírito. Na cruz, enquanto experimenta o abandono extremo, não Se deixa cair no desespero – este é o limite –, mas reza e entrega-Se: grita o seu «porquê» com as palavras de um Salmo e entrega-Se nas mãos do Pai, embora O sinta distante ou nem O sinta sequer, porque Se encontra abandonado. No abandono, entrega-Se. No abandono, continua a amar os Seus que O deixaram sozinho. No abandono, perdoa aos que O crucificaram. Cristo, abandonado, impele-nos a procurá-Lo e a amá-Lo nos abandonados. Há tantos «cristos abandonados», visíveis e invisíveis. Os abandonados de hoje. Os cristos de hoje. Jesus abandonado pede-nos para termos olhos e coração para os abandonados. Peçamos hoje, neste Domingo de Ramos na Paixão do Senhor, a Jesus abandonado por Deus e pelos homens, a graça de saber amar Jesus abandonado e saber amar Jesus em cada abandonado, em cada abandonada. Não fomos deixados sozinhos por Deus; cuidemos de quem é deixado só» (Papa Francisco).

Padre Manuel Reis

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