Domingo no Carmelo [Domingo V da Páscoa]

Domingo no Carmelo [Domingo V da Páscoa]

2019-05-20 0 Por admin

Estimados amigos e leitores do Domingo no Carmelo,

É com enorme alegria que disponibilizamos a edição desta semana.

Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros

«O Senhor Jesus afirma que dá um novo mandamento aos seus discípulos, isto é, que se amem mutuamente… Mas não existia já este mandamento na antiga lei do Senhor que prescreve: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”? (Lv 19, 18). Por que razão então o Senhor chama novo a um mandamento que parece ser tão antigo? Será que é novo porque nos despoja do homem velho para nos revestir do novo? Sem dúvida. Torna novo quem lhe dá ouvidos ou, melhor, quem lhe obedece. Mas o amor que regenera não é o meramente humano, mas sim aquele que o Senhor caracteriza e qualifica com as palavras: “como Eu vos amei” (Jo 13, 34). Este é o amor que nos renova, para que nos tornemos homens novos, herdeiros da nova aliança, cantores de um cântico novo. Este amor, irmãos caríssimos, renovou os antigos justos, os patriarcas e os profetas, como depois renovou os apóstolos. Este amor renova agora também todos os povos e, de todo o género humano disperso pela terra, forma um povo novo, corpo da nova Esposa do Unigénito Filho de Deus, da qual se fala no Cântico dos Cânticos: “Quem é esta que se levanta resplandecente de brancura”? (cf. Ct 8, 5). Sem dúvida resplandecente de candura porque foi renovada. Por quê, senão pelo mandamento novo?» (Santo Agostinho, Tr. in Jo., 65, 1 ss).

Na Cruz de Jesus Deus será glorificado como Amor e Verdade, Justiça e Misericórdia. Deus também glorificará a Cristo, e o sinal dessa glorificação de Cristo será a sua ressurreição «ao terceiro dia»… Com estas palavras «renova todas as coisas».

«Quando Jesus deu aos Apóstolos um mandamento novo, o seu mandamento, como diz mais adiante, não fala já de amar o próximo como a si mesmo, mas de o amar como Ele, Jesus, o amou, como o amará até à consumação dos séculos… Ah, Senhor! eu sei que não mandais nada que seja impossível, conheceis melhor do que eu a minha fraqueza, a minha imperfeição, sabeis bem que nunca poderia amar as minhas Irmãs como Vós as amais, se Vós mesmo, ó meu Jesus, não as amásseis também em mim. Foi porque me queríeis conceder esta graça que ditastes um mandamento novo. – Oh! como gosto dele, já que me dá a certeza de que a vossa vontade é amardes em mim todos aqueles a quem me mandais amar!… Sim, eu sinto que quando sou caridosa, é só Jesus que age em mim; quanto mais estiver unida a Ele, tanto mais amo também as minhas Irmãs» (Santa Teresinha, C 12 v).

O Senhor Ressuscitado ama-nos e ama em nós, quando nos amamos uns aos outros. «Foi sobretudo a prática do amor que imprimiu em nós uma espécie de marca de fogo aos olhos dos pagãos: Vede como eles se amam» (Tertuliano). A Eucaristia é o «sacramento da caridade», é a doação que Jesus Cristo faz de Si mesmo, revelando-nos o amor infinito de Deus por cada homem. No sacramento da Eucaristia, Jesus mostra-nos de modo particular a verdade do amor que é a própria essência de Deus» (Bento XVI, S Ch 1-2). O amor novo é tarefa e sinal distintivo da Igreja… «Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados» (1 Jo 4, 10). Aqui radica o coração do Evangelho, o núcleo central do cristianismo. A luz deste amor abriu os olhos de S. Agostinho, fê-lo encontrar a “beleza antiga e sempre nova”, na qual unicamente encontra a paz o coração do homem. “Se não tiver caridade, nada sou” (1 Co 13, 3).

Porque gostamos tanto do que é novo?… O novo (é sempre novidade, sempre notícia) não se opõe a antigo (aquilo que melhora com o tempo), mas a velho (aquilo que com o tempo se deteriora e perde valor). O Evangelho é a «boa nova», a novidade, a notícia por excelência. Como se define «novo» um mandamento que já era conhecido no Antigo Testamento? O próprio evangelista João, noutra passagem, escreve: «Queridos, não vos escrevo um mandamento novo, mas o mandamento antigo, que tendes desde o princípio… E, contudo, escreve-vos um mandamento novo» (1 Jo 2, 7-8). Em resumo, um mandamento novo o um mandamento antigo? Um e outro. Antigo segundo a letra, porque se tinha dado desde há tempo; novo segundo o Espírito, porque só com Cristo se deu também a força para o pôr em prática. Amar o próximo «como a si mesmo» tinha-se convertido num mandamento «velho», isto é, débil e desgastado, à força de ser transgredido, porque a Lei impunha a obrigação de amar, mas não dava a força para o fazer. Era necessária a graça, que é fruto da Ressurreição de Jesus: «Permanecei no meu amor» (Jo 15, 9). Não é quando Jesus o formula durante a sua vida que o mandamento do amor se transforma num mandamento novo, mas quando, morrendo na cruz e dando-nos o Espírito Santo, nos torna capazes de nos amarmos uns aos outros, infundindo em nós o amor que Ele mesmo tem a cada um de nós.

O mandamento de Jesus é um mandamento novo, em sentido activo e dinâmico, porque «renova», torna novo, transforma tudo. Se o amor falasse, poderia dizer as palavras de Deus na segunda leitura: «Vou renovar todas as coisas». «Graças à Eucaristia, a Igreja renasce sempre de novo» (Bento XVI, SCh, n. 6). «Os cristãos são os que chegaram à nova esperança e vivem “segundo o domingo”, no qual se faz memória da novidade radical trazida por Jesus. Hoje torna-se necessário redescobrir que Jesus Cristo é uma pessoal real cuja inserção na história é capaz de renovar a vida de todos» (Bento XVI, Sch, n. 77).

«Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 35). A medida do amor ao próximo é a sua, a que Ele mesmo praticou: «É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei» (Jo 15, 12). Conhecemos esta medida. Para a concretizar, basta uma simples alusão: «Ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos» (Jo 15, 13). Na tarde desta vida seremos julgados no amor, porque o grau de amor torna-se o grau da nossa glória e do nosso poder de visão beatífica. Mas Jesus, ao descrever as circunstâncias deste juízo, determina a prova de amor que será exigida: «Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo.Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber» (Mt 25, 34-35). Surpreende-nos a eleição de tal critério, bem como àqueles a quem se aplica: «Então, os justos vão responder-lhe: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber?… E o Rei vai dizer-lhes, em resposta: ‘Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 37. 40). A objecção obrigou-nos a uma insistência, que já não deixa nenhuma dúvida, e a uma feliz precisão. O amor, no qual seremos julgados, é o que tivermos professado a Deus nos nossos irmãos» (P. Eugénio Maria, Quero ver a Deus).

«Amar, ser amada e voltar à terra para fazer amar o Amor» (Últimas Conversas 10. 8. 4).