Palavras de Paulo VI sobre Santa Teresa de Jesus

2018-10-14 0 Por admin
 

 

 

Paulo VI proclamou a Santa Teresa de Jesus Doutora da Igreja, realçando que era a primeira mulher a receber este título, que incidia na história da Igreja e que as mulheres estão chamadas a «reconciliar os homens com a vida», «a salvar a paz do mundo» (VAT. II, Mensagem às Mulheres). Santa Teresa era espanhola, e com razão Espanha considera-a uma, das suas grandes glórias». Mulher excepcional, grande carmelita, fundadora, reformadora, escritora e genialíssima e fecunda, resplendor de sabedoria na santidade, mãe e mestra espiritual, contemplativa e activa na oração, com todas as suas forças para chegar a Deus, por cima de todo obstáculo. São algumas das magníficas características que o Papa Montini recordou na sua intensa e emocionada homilia, pronunciada também em espanhol nesse histórico 27 de Setembro de 1970.

Devemos acrescentar duas observações que nos parecem importantes. A primeira é que devemos notar que Santa Teresa de Ávila é a primeira mulher a quem a Igreja confere este título de Doutora; e este facto sem deixar de recordar as palavras severas de São Paulo: Mulieres in Ecclesiis taceant (1 Cor 14, 34); o que quer dizer, ainda hoje, como a mulher não está destinada a ter na Igreja funções hierárquicas de magistério e de ministério. Violou-se, então, o preceito apostólico? Podemos responder claramente que não.

Não se trata realmente de um título que comporte funções hierárquicas de magistério, mas, ao mesmo tempo, devemos realçar que isto não significa, de modo nenhum, uma menor estima pela sublime missão que a mulher tem no meio do Povo de Deus.

Pelo contrário, a mulher, ao fazer parte da Igreja pelo Baptismo, participa do sacerdócio comum dos fiéis, que a capacita e obriga a «confessar diante dos homens a fé que recebeu de Deus por meio da Igreja» (Lumen gentium, c. 2, 11).

E nessa profissão de fé tantas mulheres chegaram aos cumes mais elevados, até ao ponto de que a sua palavra e os seus escritos foram luz e guia dos seus irmãos. Luz alimentada cada dia no contacto íntimo com Deus, mesmo nas formas mais nobres da oração mística, para a qual São Francisco de Sales não hesita a dizer que possuem uma capacidade especial. Luz feita vida de maneira sublime para o bem e o serviço dos homens.

Por isso, o Concílio quis reconhecer a alta colaboração com a graça divina que as mulheres são chamadas a exercer, para instaurar o Reino de Deus na terra, e, ao exaltar a grandeza da sua missão, não duvida em convidá-las igualmente a cooperar «para que a humanidade não decaia», para «reconciliar os homens com a vida», «para salvar a paz no mundo» (VAT. II, Mensagem às mulheres).

Em segundo lugar, não queremos deixar passar o facto de que Santa Teresa era espanhola, e com razão Espanha a considera uma das suas grandes glórias. Apreciam-se, na sua personalidade, os traços da sua pátria: a robustez do espírito, a profundidade dos sentimentos, a sinceridade de coração, o amor à Igreja. A sua figura situa-se numa época gloriosa de santos e de mestres que marcam o seu tempo com o desenvolvimento da espiritualidade. Escuta-os com a humildade da discípula, enquanto, ao mesmo tempo, sabe julgá-los com a perspicácia de uma grande mestra de vida espiritual, e como tal a consideram eles.

Por outro lado, dentro e fora das fronteiras da sua pátria, agitava-se violenta a tempestade da Reforma, opondo entre si os filhos da Igreja. Ela, pelo seu amor à verdade e a sua intimidade com o Mestre, teve de afrontar dissabores e incompreensões de toda a espécie e não sabia pacificar o seu espírito diante da ruptura da unidade: «Deu-me grande pesar – escreve – e, como se eu pudesse ou fosse alguma coisa, chorava com o Senhor e suplicava-lhe pusesse remédio a tanto mal» (Caminho de perfeição, c. 1, n. 2; BAC, 1962, 185).

Este seu sentir com a Igreja, provado na dor à vista da dispersão das forças, levou-a a reagir com toda a força do seu espírito castelhano na ânsia de edificar o reino de Deus; decide penetrar no mundo que a rodeava com uma visão reformadora para lhe imprimir um sentido, uma harmonia, uma alma cristã.

À distância de cinco séculos, Santa Teresa de Ávila continua a deixar as marcas da sua missão espiritual, da nobreza do seu coração sedento de catolicidade, do seu amor despojado de todo afecto terreno para se poder dar totalmente à Igreja. Antes do seu último suspiro, bem pode dizer, como resumo da sua vida: «Enfim, sou filha da Igreja!».

Nesta expressão, agradável presságio da glória dos bem-aventurados para Teresa de Jesus, queremos ver a herança espiritual ligada a toda a Espanha. Queremos ver ainda um convite a todos nós para nos tornarmos eco da sua voz, transformando-a em programa da nossa vida para poder repetir com ela: somos filhos das Igreja!

 

Fonte: Rádio Vaticana