«A fonte da água que jorra para a vida eterna»
A liturgia quaresmal dá-nos uma catequese batismal no diálogo de Jesus com a Samaritana sobre os dons espirituais concedidos no Batismo aos catecúmenos e na Eucaristia aos fiéis. O primeiro dom, o Espírito Santo, é simbolizado na água batismal oferecida por Cristo aos que têm sede de Deus.
O batismo é «a fonte de água que jorra para a vida eterna». Nele saciamos a nossa sede com a água viva do Espírito Santo: «Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados» (Mt 5, 6). Muitos constroem cisternas rotas para apagar a sua sede: os novos poços das grandes superfícies comerciais não apagam a nossa sede de vida. Não andaremos a buscar água nas fontes erradas?…
A sede do povo de Israel no deserto retrata a sede da humanidade peregrina que tem sede espiritual de Deus: «Dá-nos água para beber». «Em toda a pessoa existe necessidade inata de Deus e da salvação que só Ele pode conceder».
Moisés clamou ao Senhor, dizendo: «Que hei de fazer a este povo? Pouco falta para me apedrejarem». O Senhor respondeu a Moisés: «Passa para a frente do povo e leva contigo alguns anciãos de Israel. Toma na mão a vara com que fustigaste o Rio e põe-te a caminho. Eu estarei diante de ti, sobre o rochedo, no monte Horeb. Baterás no rochedo e dele sairá água; então o povo poderá beber».
«Moisés feriu o rochedo e fez brotar torrentes de água; Jesus toca na mesa, na mesa espiritual, e faz jorrar as fontes do Espírito. Por isso, a mesa está colocada no meio, como uma fonte, para que de todos os lados acorram os rebanhos à fonte e bebam das águas da salvação. Uma vez que nos é dada esta fonte, este manancial de vida tão abundante, uma vez que a nossa mesa está repleta de bens inumeráveis e nos inunda com seus dons espirituais, aproximemo-nos de coração sincero e consciência pura, para obtermos a graça e a misericórdia no tempo oportuno» (São João Crisóstomo).
A água prometida «derramarei sobre vós uma água pura que vos purificará de todas as vossas imundícies» (Ez 36, 23-26) brota de Cristo, «o rochedo de onde sairá água» (Ex 17, 5-7), da qual «os nossos pais beberam todos da mesma água espiritual, beberam de um rochedo espiritual que os acompanhava, e esta rocha era Cristo» (1 Cor 10, 1-4). «Treme, ó terra, diante do Senhor, diante do Deus de Jacob, que transformou o rochedo em lago e a pedra em fonte de água» (Sl 113 A). «Um dos soldados perfurou-lhe o lado com uma lança e logo saiu sangue e água» (Jo 19, 34). «A pedra que os construtores rejeitaram, tornou-se pedra angular» da Igreja (Sl 118, 22).
«Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações. Quem dera ouvísseis hoje a sua voz: Não endureçais os vossos corações, como em Meriba, como no dia de Massa no deserto, onde vossos pais Me tentaram e provocaram, apesar de terem visto as minhas obras» (Sl 94).
Deus prova o seu amor por nós na morte de Jesus: «Cristo morreu por nós, quando éramos pecadores». «O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado».
A sede de Jesus na Cruz: «Tenho sede!» (Jo 19, 28) … «Veio uma mulher da Samaria tirar água». Jesus disse-lhe: «Dá-Me de beber!» (Jo 4, 7) é uma sede de fé e amor. «Quando Ele pediu à samaritana água para beber, já lhe tinha concedido o dom da fé e da sua fé teve uma sede tão viva que acendeu nela o fogo do amor divino» (Prefácio).
Disse-lhe Jesus: «Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz: ‘Dá-Me de beber’, tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva». «O Messias, teu salvador, sou Eu, que estou a falar contigo». Jesus é a água da vida eterna, que dá resposta à profunda sede humana: «Senhor, dá-me dessa água, para que eu não sinta mais sede e não tenha de vir aqui buscá-la».
«Oh! quantas vezes me recordo da água viva de que falou o Senhor à Samaritana! E assim sou muito afeiçoada àquele Evangelho… suplicava muitas vezes ao Senhor que em desse daquela água, e, onde eu estava sempre, tinha um quadro, de quando o Senhor chegou ao poço, com este letreiro: “Domine, da mihi, aquam”» (V 30, 19).
Jesus é Aquele que dá de beber o dom de Deus, a água que jorra para a vida eterna. O Espírito Santo é a água espiritual que Cristo nos dá no batismo que satisfaz a nossa sede de Deus e jorra para a vida eterna. «Se alguém tem sede, venha ter comigo e beba; se alguém acredita em Mim, hão de correr do seu coração rios de água viva» (Jo 7, 37-39).
«Venha ter comigo e beba». «Se me perco no deserto / E de sede me consumo e desfaleço / Nada temo porque a Fonte está comigo» (Hino de Completas). A Eucaristia é uma fonte de água viva. Vimos à Eucaristia, porque em Jesus encontramos a água viva, na bebida espiritual da sua Palavra de salvação e na comida espiritual do seu Pão que dá a vida eterna. Deus está sempre connosco, no meio de nós, na Eucaristia (Mt 18, 20) e dentro de nós (Jo 14, 23), pela sagrada comunhão, infundindo em nós a água viva do Espírito Santo que derrama nos nossos corações a bebida e comida do amor de Deus.
«Com que sede se deseja ter esta sede!… Deus, vos traga, irmãs, a beber esta água, e as que agora a bebeis, experimentais isto e entendereis como o verdadeiro amor de Deus (…) Olhai que o Senhor convida a todos… Tenho por certo que a todos os que se não ficarem no caminho não lhes faltará está água viva. O Senhor, que a promete, nos dê a Sua graça, por quem Sua Majestade é, para a buscarmos como se deve buscar» (Santa Teresa de Jesus).
Padre Manuel Reis

