«O seu rosto ficou resplandecente como o sol»
Deus chamou Abraão: «Deixa a tua terra…». Prometeu-lhe: «Farei de ti uma grande nação…». Abraão obedeceu a Deus: «Abraão partiu…». Nesta Quaresma, o «Deus de Abraão», «pai do povo de Deus», chama-nos à conversão e à fé pascal em «Cristo Jesus, nosso Salvador, que destruiu a morte e fez brilhar a vida e a imoralidade por meio do Evangelho». A Quaresma, preparação para a Páscoa, é um tempo de graça, de graça de conversão, de «transfiguração», de salvação e santificação da nossa vida.
Jesus «conduziu-os à parte a uma alta montanha». «Transfigurou-se diante deles». «O seu rosto ficou resplandecente como o sol». Moisés e Elias falavam da sua morte que ia consumar-se em Jerusalém». Pedro, Tiago e João sobem com Jesus ao monte da Transfiguração e dizem-lhe: «Senhor, é bom estarmos aqui». O Pai revela o seu Filho – «a excelência da sua dignidade oculta» – e confirma-o na sua missão batismal e pascal: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O». A sua e nossa Mãe manda-nos: «Fazei o que Ele vos disser». Agora, somente Jesus deverá ser escutado: Ele é a Palavra de vida eterna. «Ninguém vai ao Pai senão por Mim». «Eu sou o Caminho». O seu caminho é o nosso caminho.
A Quaresma é um tempo para escutar mais intensamente a Palavra de Deus. Jesus transfigurado ensina-nos que pela Cruz chegaremos à Luz. «Diz-me o coração: Procurai a face do Senhor: A vossa face, Senhor, eu procuro; não escondais de mim o vosso rosto» (Sl 26, 8). «É o teu rosto, Senhor, que eu procuro» (Sl 27, 8). Nele, Deus nos abençoou verdadeiramente, fazendo “resplandecer sobre nós a luz do seu rosto” (Sl 67, 2).
«A Luz extingue-se nas trevas de Sexta-Feira Santa, mas esplende como sol de graça na manhã da Ressurreição. Per Passionem et Crucem ad resurrectionis gloriam: é o caminho do Filho de Deus feito carne. Com o Filho do homem, através do sofrimento e da morte, à glória da Ressurreição: é o caminho de cada um de nós, é o caminho de toda a humanidade (E. Stein).
«Uma palavra falou o Pai, que é o seu Filho, e esta fala sempre em eterno silêncio e em silêncio há de ser ouvida pela alma» (S. João da Cruz). «Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações». «Nós contemplamos a sua glória de Filho Unigénito do Pai, cheio de graça e verdade», e, «quando Cristo, nossa vida, se manifestar, então também nós nos manifestaremos com Ele na glória». Entretanto, nós todos que, com o rosto descoberto, refletimos a glória do Senhor, somos transfigurados na sua própria imagem, de glória em glória, pelo Senhor que é Espírito». Assim, «purificado o nossos olhar espiritual, poderemos alegrar-nos um dia na visão da sua glória».
«Depois de anunciar aos discípulos a sua morte, manifestou-lhes no monte santo o esplendor da sua glória, para mostrar, com o testemunho da Lei e dos Profetas, que pela sua paixão alcançaria a glória da ressurreição» (Prefácio).
A Eucaristia dominical é a nossa transfiguração pelo Senhor para sermos transfiguradores do mundo. Subimos com Ele ao monte Tabor, ao altar, que é Cristo, para sermos transfigurados, e descemos à planície, para, com Ele, sermos transfiguradores dos homens. «Pedro querias descansar no monte, mas desce, prega a palavra… Desce a trabalhar na terra, a servir na terra, a ser desprezado e crucificado na terra… Tem caridade, prega a verdade: então chegarás à eternidade onde encontrarás segurança» (S. Agostinho).
Depois da sua paixão, morte e ressurreição, levam o Evangelho de Jesus Transfigurado e Ressuscitado por todo o mundo. «Que o Santo Evangelho proclamado sirva para confirmar a fé de todos, e ninguém se envergonhe da Cruz de Cristo, pela qual o mundo foi redimido» (São Leão Magno). O caminho da montanha é a ascese e prática quaresmal do jejum e da abstinência, da oração, da esmola e da caridade, pela escuta mais intensa da Palavra de Deus, como nos manda a voz do Pai do céu. Na Eucaristia, escutamos e vemos o Senhor Jesus; na missão, falamos e fazemos ver o Salvador / Transfigurador do mundo.
«O Todo-poderoso deu- aos Santos, como ponto de apoio: Ele mesmo e Ele só; e como alavanca: a oração, que abrasa com fogo de amor. E foi assim que levantaram o mundo; é assim que os santos que ainda militam na terra o levantam, e que, até ao fim do mundo, os futuros santos o levantarão também» (S. Teresinha).
Padre Manuel Reis

