Domingo no Carmelo

Domingo IV do Tempo Comum

«Bem-aventurados os pobres em espírito»

As bem-aventuranças são o retrato de Jesus e o bilhete de identidade dos santos. Jesus ensina as bem-aventuranças, as atitudes e os caminhos para a felicidade. O Reino de Deus é uma Boa Notícia para os pobres em espírito. Jesus promete-nos e dá-nos a felicidade neste mundo, embora a sua plenitude se alcance apenas no Reino dos Céus, porque faz de nós semeadores de felicidade que passam fazendo o bem e combatendo o mal da infelicidade para que este mundo deixe de ser um «vale de lágrimas» e passe a ser a «cidade da alegria», o «reino da paz».

«É impossível encontrar quem não queira ser feliz. Oh se os homens, assim como desejam o prémio não recusassem o trabalho premiado! Haverá alguém que não corra com entusiasmo quando se lhe diz: “vais ser feliz”? Oiça igualmente de bom grado quando lhe dizem: “se fizeres isto”. Se aspira ao prémio, não se esquive ao combate; e perante a recomendação do prémio que o espírito se entusiasme com ardor para o trabalho… Mais tarde será teu o reino dos céus, sê agora pobre em espírito. O que é ser pobre em espírito. Todo aquele que se incha não é pobre em espírito. Portanto, o humilde é pobre em espírito» (S. Agostinho).

«No início do seu ministério público, Jesus apresenta-se na sinagoga de Nazaré lendo o livro de Isaías e aplicando a si mesmo a palavra do profeta: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres» (Lc 4, 18; cf. Is 61, 1). Ele manifesta-se, portanto, como Aquele que, no hoje da história, vem realizar a proximidade amorosa de Deus, que em primeiro lugar é obra de libertação para quem está prisioneiro do mal, para os fracos e os pobres. Na verdade, os sinais que acompanham a pregação de Jesus são manifestações de amor e de compaixão com as quais Deus olha para os doentes, os pobres e os pecadores que, em virtude da sua condição, eram marginalizados na sociedade, inclusivamente pela religião; Ele abre os olhos aos cegos, cura os leprosos, ressuscita os mortos e anuncia aos pobres a boa nova: Deus fez-se próximo, Deus ama-vos (cf. Lc 7, 22). Isto explica a razão pela qual Ele proclama: «Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus» (Lc 6, 20). Efetivamente, Deus mostra predileção pelos pobres: a eles primeiramente se dirige a palavra de esperança e libertação do Senhor e por isso ninguém, apesar da condição de pobreza ou fraqueza, deve sentir-se abandonado. E a Igreja, se deseja ser de Cristo, deve ser Igreja das Bem-aventuranças, Igreja que dá vez aos pequeninos e caminha pobre com os pobres, lugar onde os pobres têm um espaço privilegiado (Tg 2, 2-4) Leão XIV, Dilexit te, n. 21).

Jesus anunciou a boa nova aos pobres e a Igreja, se deseja ser de Cristo, deve ser Igreja das Bem-aventuranças, que caminha pobre com os pobres, certa e segura de que «o Altíssimo não se deixa vencer em generosidade por aqueles que O servem nos mais necessitados: quanto maior o amor aos pobres, maior a recompensa da parte de Deus». «Para os cristãos, os pobres não são uma categoria sociológica, mas a própria carne de Cristo» (n. 110). «Uma Igreja que não coloca limites ao amor, que não conhece inimigos a combater, mas apenas homens e mulheres a amar, é a Igreja de que o mundo hoje precisa» (n. 120).

«Escolhi recordar esta história bimilenária de atenção eclesial aos pobres e com os pobres para mostrar que ela é parte essencial do caminho ininterrupto da Igreja. O cuidado com os pobres faz parte da grande Tradição da Igreja, como um farol de luz que, a partir do Evangelho, iluminou os corações e os passos dos cristãos de todos os tempos. Enquanto Corpo de Cristo, a Igreja sente como sua própria “carne” a vida dos pobres, que são parte privilegiada do povo a caminho. Por isso, o amor aos pobres – seja qual for a forma dessa pobreza – é a garantia evangélica de uma Igreja fiel ao coração de Deus» (n. 103).

«O Doutor da Graça via no cuidado aos pobres uma prova concreta da sinceridade da fé. Aquele que diz amar a Deus e não se compadece dos necessitados, mente (cf. 1Jo 4, 20). «Recebi terra e darei o Céu. Recebi coisas temporais e darei em troca bens eternos. Recebi pão, darei a vida. […] Recebi hospedagem e darei uma casa. Fui visitado na doença e darei a saúde. Fui visitado na prisão e darei a liberdade. O pão que foi dado aos meus pobres foi consumido; o pão que eu darei restaura as forças, sem nunca acabar». O Altíssimo não se deixa vencer em generosidade por aqueles que O servem nos mais necessitados: quanto maior o amor aos pobres, maior a recompensa da parte de Deus» (n. 45).

«É preciso recordar sempre que a proposta do Evangelho não é apenas a de uma relação individual e íntima com o Senhor. Ela é mais ampla: «é o Reino de Deus (cf. Lc 4, 43); trata-se de amar a Deus, que reina no mundo. Na medida em que Ele conseguir reinar entre nós, a vida social será um espaço de fraternidade, de justiça, de paz, de dignidade para todos. Por isso, tanto o anúncio como a experiência cristã tendem a provocar consequências sociais. Procuremos o seu Reino» (n. 97).

Padre Manuel Reis

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