Domingo no Carmelo

Domingo II do Tempo Comum

«Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo»

De 18 a 25 de janeiro decorre o Oitavário de Orações pela Unidade dos Cristãos, sob o lema: “Há um só corpo e um só Espírito, assim como fostes chamados a uma só esperança – a da vossa vocação” (Ef 4, 4). O Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, Unigénito do Pai e primogénito de muitos irmãos, Cabeça da Igreja, é a única esperança da unidade do Seu Corpo, na paz de um só Espírito.

Jesus, na véspera da sua Paixão, rezou ao Pai: “Que todos sejam um, como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti” (Jo 17, 21).  “A divisão dos cristãos contradiz abertamente a vontade de Cristo e constitui um escândalo para o mundo” (Unitatis Redintegratio, 1).  “A unidade querida por Deus só pode realizar-se na adesão comum ao conteúdo integral da fé revelada” (Ut Unum Sint, 18).

«No centro do Credo Niceno-Constantinopolitano está a profissão de fé em Jesus Cristo, nosso Senhor e Deus. Este é o coração da nossa vida cristã. Por isso, comprometemo-nos a seguir Jesus como Mestre, companheiro, irmão e amigo. Contudo, o Credo Niceno pede mais: lembra-nos, com efeito, que não devemos esquecer que Jesus Cristo é o Senhor (Kyrios), o Filho do Deus vivo, que «pela nossa salvação desceu do céu» e morreu «por nós» na cruz, abrindo-nos o caminho para uma vida nova com a sua ressurreição e ascensão».

No batismo professamos a fé da Igreja no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. «O Credo de Nicéia professa a fé no Deus que nos redimiu por meio de Jesus Cristo. O Credo Niceno não nos fala de um Deus distante, inatingível, imóvel, que repousa em si mesmo, mas de um Deus que está perto de nós, que nos acompanha no nosso caminho pelas estradas do mundo e nos lugares mais obscuros da terra. A sua imensidão manifesta-se quando se faz pequeno e despoja-se da sua majestade infinita, tornando-se nosso próximo nos pequenos e nos pobres».

«A partir do Concílio de Calcedónia, em 451, o Concílio de Constantinopla foi reconhecido como ecumênico e o Credo Niceno-Constantinopolitano foi declarado universalmente vinculativo. Ele, portanto, constituiu um elo de unidade entre o Oriente e o Ocidente. No século XVI, também foi mantido pelas comunidades eclesiais surgidas da Reforma. O Credo Niceno-Constantinopolitano é, assim, a profissão de fé comum a todas as tradições cristãs».

«O Concílio de Niceia é atual pelo seu altíssimo valor ecuménico. A este respeito, alcançar a unidade de todos os cristãos foi um dos principais objetivos do último Concílio, o Vaticano II.  Há exatamente trinta anos, São João Paulo II continuou e promoveu a mensagem conciliar na Encíclica Ut unum sint (25 de maio de 1995). Assim, com o grande aniversário do primeiro Concílio de Nicéia, celebramos também o aniversário da primeira Encíclica ecuménica, que pode ser considerada como um manifesto que atualizou os mesmos fundamentos ecuménicos estabelecidos pelo Concílio de Nicéia.

Graças a Deus, o movimento ecuménico alcançou muitos resultados nos últimos sessenta anos. Embora a plena unidade visível com as Igrejas Ortodoxas e Ortodoxas Orientais e com as Comunidades eclesiais nascidas da Reforma ainda não nos tenha sido concedida, o diálogo ecuménico levou-nos, com base no único batismo e no Credo Niceno–Constantinopolitano, a reconhecer nos irmãos e irmãs das outras Igrejas e Comunidades eclesiais, os nossos irmãos e irmãs em Jesus Cristo e a redescobrir a única e universal Comunidade dos discípulos de Cristo em todo o mundo. Com efeito, compartilhamos a fé no único Deus, Pai de todos os homens, confessamos juntos o único Senhor e verdadeiro Filho de Deus, Jesus Cristo, e o único Espírito Santo, que nos inspira e nos impele à plena unidade e ao testemunho comum do Evangelho. Realmente, o que nos une é muito mais do que o que nos divide! Assim, num mundo divido e dilacerado por muitos conflitos, a única comunidade cristã universal pode ser sinal de paz e instrumento de reconciliação, contribuindo de forma decisiva para um compromisso mundial pela paz. São João Paulo II recordou-nos, em particular, o testemunho dos muitos mártires cristãos provenientes de todas as Igrejas e Comunidades eclesiais: a sua memória une-nos e exorta-nos a ser testemunhas e operadores de paz no mundo.

Para podermos desempenhar este ministério de forma crível, devemos caminhar juntos para alcançar a unidade e a reconciliação entre todos os cristãos. O Credo de Nicéia pode ser a base e o critério de referência deste caminho. Propõe-nos efetivamente um modelo de verdadeira unidade na legítima diversidade. Unidade na Trindade, Trindade na Unidade, porque a unidade sem multiplicidade é tirania, a multiplicidade sem unidade é desintegração. A dinâmica trinitária não é dualista, como um aut-aut excludente, mas sim um vínculo envolvente, um et-et: o Espírito Santo é o vínculo de unidade que adoramos juntamente com o Pai e o Filho. Devemos, portanto, deixar para trás as controvérsias teológicas, que perderam a sua razão de ser, para adquirir um pensamento comum e, mais ainda, uma oração comum ao Espírito Santo, para que nos reúna a todos numa única fé e num único amor» (Leão XIV, Carta Apostólica, In Unitate Fidei (23 de novembro de 2025), n. 12).

Neste Ano Jubilar Sanjoanino, recordemos que o Santo associa sempre à «oração» a «esperança», neste caso, a de Jesus, que, em oração filial ao Pai, consciente da unidade trinitária, pede para que todos os discípulos participem da Sua filiação e da Sua unidade com o Pai»: «Não nos resta em todas as nossas necessidades, trabalhos e dificuldades, outro meio melhor e mais seguro do que a oração e a esperança de que ele proverá pelos meios que ele quiser» (2 S 21, 5).

Por isso, na «esperança que tudo alcança», rezamos com a Igreja: «Senhor, nosso Deus, que nos chamastes para formarmos um só corpo, unidos numa só fé e num só Batismo, concedei a todos os cristãos o dom da unidade na vossa Igreja».

Padre Manuel Reis

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