Domingo no Carmelo

Solenidade de Cristo Rei

«Lembra-Te de mim, Senhor, quando estiveres no teu reino»

A esta oração de súplica do «bom ladrão», respondeu Jesus: «Hoje, estarás comigo no Paraíso». Jesus exerce a sua realeza na cruz salvando toda a humanidade. Quando o quiseram fazer rei, depois da multiplicação dos pães, escapou-se, pois, não tinha vindo para ser servido, mas para servir e dar a vida por todos. Servir é reinar! A plenitude da sua realeza é a plenitude da sua entrega na cruz. Jesus reina na cruz. Jesus é rei, porque morreu na cruz e deu a vida pelos pecadores. Cristo é rei, porque é o Filho consubstancial ao Pai. O reino é conquistado ao preço do sacrifício da cruz. Como homem é rei pela cruz, onde resgata toda a humanidade; o seu poder real foi confirmado pela sua ressurreição de entre os mortos (Cl 1, 18). «Aprouve a Deus que n’Ele residisse toda a plenitude e por Ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas, estabelecendo a paz, pelo sangue da sua cruz, com todas as criaturas (Cl 1, 19-20). Jesus Crucificado «uniu e reconciliou o género humano com Deus» (São João da Cruz). Jesus passa da morte à glória, exercendo o seu poder real de perdoar os pecados e salvar a todos os pecadores, perdidos ou excluídos por causa das suas obras: «Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo das nossas más ações».

A cruz foi o ponto crítico da fé de Simão Pedro e dos Apóstolos, bem como dos chefes dos judeus, dos soldados e do malfeitor crucificado que O insultava: «Não és Tu o Messias? Salva-Te a ti mesmo e a nós também». Não podiam tolerar a ideia de um messias crucificado. Pedro «converteu-se», renunciou a querer salvar Jesus da Cruz e aceitou ser salvo por Ele, pela sua Cruz, pelas «Suas chagas». O mesmo fez o «bom ladrão», iluminado pela fé, o primeiro a reconhecer a realeza de Jesus: «Jesus, lembra-Te de mim, quando vieres com a tua realeza!». Pede a salvação para o futuro e recebe-a no presente, porque Jesus expiou os seus pecados e mereceu-lhe a graça do perdão. A fé do «bom ladrão» assegura-lhe a salvação. Esta súplica é uma verdadeira confissão de fé em Jesus Salvador, que, naquelas circunstâncias, tem um tom profético e exemplar para nós. A lição do bom ladrão é a da fé na realeza de Jesus: ensina-nos a olhar para Jesus Crucificado com os olhos profundos do Espírito de Deus a abrir-nos o caminho do Seu «Reino universal (“todos os povos, línguas e nações O hão de servir para sempre”; “reunir de todos os cantos da terra as ovelhas do seu rebanho”) e eterno (“reino que está preparado desde o princípio do mundo”; “o seu trono permanece para sempre”), reino da verdade e da vida, da santidade (“Deus reina em todos os seus santos”) e da graça, da justiça, do amor e da paz» (Prefácio). «Não subestimemos este ladrão e não tenhamos vergonha de tomar por mestre aquele que o Senhor não teve vergonha de introduzir, à frente de todos, no paraíso».

«A promessa de Jesus ao bom ladrão dá-nos uma grande esperança: diz-nos que a graça de Deus é sempre mais abundante do que a súplica que lhe pediu. O Senhor dá sempre mais do que o que lhe pedimos: pedimos-lhe que se lembre de nós, e leva-nos ao seu reino. Peçamos ao Senhor que Se lembre de nós, com a segurança de que pela sua misericórdia podemos participar da sua glória no paraíso. Amen» (Papa Francisco).

O rei David é figura do rei Jesus Cristo e o seu reino é símbolo do Reino de Deus inaugurado e estabelecido por Jesus: «O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David, reinará na casa de Jacob para sempre e o seu reino não terá fim» (Lc 1, 33). S. Paulo exalta a realeza de Jesus Cristo: Ele é a imagem do Deus invisível, oPrimogénito de toda a criatura, a cabeça da Igreja, Primogénito de entre os mortos, em tudo Ele tem o primeiro lugar. Por isso, o povo de Deus na Eucaristia dá graças a Deus Pai que «nos libertou do poder das trevas e nos transferiu para o reino do seu Filho muito amado», no qual nos criou e pelo qual nos redimiu, nos deu a vida e salvou. Por isso, cantamos hoje a alegria de pertencermos ao povo de Deus que peregrina a caminho da nova Jerusalém, do novo jardim, do novo paraíso: «Que alegria quando me disseram: Vamos para a casa do Senhor!» (Sl 121).

O Papa Leão XIV ensina aos jovens, neste Dia Mundial da Juventude, que «cultivar e cuidar do jardim é a tarefa original (Gn 2, 15) que Jesus levou a cabo. A sua última palavra na cruz – «Está consumado» (Jo 19, 30) – convida cada um a reencontrar a mesma tarefa, a sua tarefa. Por isso, «inclinando a cabeça, entregou o espírito» (v. 30). Temos extrema necessidade de um olhar contemplativo: se não for guardião do jardim, o ser humano torna-se seu devastador. A esperança cristã responde aos desafios aos quais hoje toda a humanidade está exposta, permanecendo no jardim onde o Crucificado foi depositado como semente, para ressuscitar e dar muito fruto. O Paraíso não está perdido, mas foi reencontrado».

«Deus que em Jesus Crucificado, nos dais a conhecer o nosso Rei, fazei-nos escolher, como Ele, o amor como força invencível e o serviço como única grandeza» (Oração universal). «Servindo a Cristo nos outros, conduzem os seus irmãos, com humildade e paciência, àquele Rei, servir ao qual é reinar (LG 53); e alcançam plenamente aquele “estado de liberdade real” que é próprio dos discípulos de Cristo: servir quer dizer reinar!”» (J. Paulo II). «A Igreja é para o mundo o sinal e instrumento do Reino que Se realiza primariamente nos corações» (J. Paulo II). «Cabeça de toda a Igreja que é o seu Corpo (Ef 1, 23), Jesus é o «Rei da Igreja que é o Seu Reino». Senhor, venha a nós o vosso reino… e nosso reino.

Padre Manuel Reis

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