«O Filho do homem é também Senhor do sábado»
A Liturgia do Domingo IX do Tempo Comum é uma boa oportunidade para fazermos uma catequese sobre o sábado judaico e o domingo cristão. O Sábado é o memorial da libertação da escravidão do Egipto. «Recorda-te que também foste escravo e que o Senhor, teu Deus, te fez sair de lá com mão forte e braço estendido». «Guarda o sábado, para o santificares, como te mandou o Senhor, teu Deus». Os judeus, guardando o sábado, imitavam o descanso de Deus após a obra da criação e prefiguravam o descanso eterno. Ao sábado, iam à sinagoga ouvir a Palavra de Deus no Antigo Testamento, a homilia do chefe da sinagoga, rezar os salmos e algumas orações. Todo o israelita que se prezasse guardava fielmente o sábado. Mas, nalguns casos pontuais – apanhar espigas e curar a mão atrofiada de um homem – de que nos fala o Evangelho de hoje, exageravam, não pouco, mas muito, e proibiam os discípulos de Jesus de apanharem espigas para comer e a Jesus de curar o homem doente ao sábado. O enfrentamento de Jesus com as classes dirigentes do seu povo sobre a «Lei do Sábado» provocou a primeira «coligação» dos seus adversários para «acabarem com Ele». Procuravam matá-lo por não guardar o sábado e por dizer que Deus é seu Pai e se fazer igual a Deus. Contudo, todas as leis de Deus, mesmo a do Sábado, destinam-se ao bem da pessoa humana. Jesus reivindica para si a autoridade em matéria de «Lei divina» – «o Sábado foi feito para o homem» – e afirma o seu poder sobre a própria Lei: «O Filho do Homem é também Senhor do sábado», que, para bom entendedor, significa: «Eu sou Deus». O sábado, bem como o domingo, é para glória de Deus e descanso do homem. Deus «fez bem» a Israel, libertando-o do Egipto. Jesus «fez bem» curando o homem que tinha a mão atrofiada: «estende a mão… a mão ficou curada». «Não basta ser passivo, sendo bom, é preciso ser activo, fazendo o bem».
O Domingo é, em sentido teológico, o dia para louvar o Senhor, para dar glória a Deus; e, em sentido antropológico, o dia do Homem, o dia para fazer bem ao homem, dar paz e felicidade ao homem. Nós, cristãos, não estamos obrigados a guardar o Sábado judaico, como os judeus, mas o Domingo, que há-de ser um dia distinto dos outros dias da semana, não um dia de trabalho, como se fôssemos «escravos» do trabalho, mas de descanso, como «senhores» do trabalho. No dizer de São João da Cruz «os trabalhos devemos medi-los a nós e não nós aos trabalhos». Como cristãos não podemos confundir e reduzir o «domingo» ao «fim-de-semana», enquanto tempo de mero descanso ou diversão, mas recuperá-lo e respeitá-lo, participando na Eucaristia, para estarmos em alegria e festa com o Senhor e com os irmãos.
Santo Agostinho incentiva-nos a viver o domingo no louvor do Senhor: «O homem, pequena parcela da criação, quer louvar-Vos. Sois Vós que o estimulais, para que encontre a sua alegria em louvar-Vos, porque nos criastes para Vós, e o nosso coração está inquieto, enquanto não descansa em Vós». Santa Teresa do Menino Jesus exorta-nos a «passar fazendo o bem na terra» e a «não descansar enquanto houver almas para salvar»: «Sinto que vou entrar no repouso… Mas sinto sobretudo que a minha missão vai começar, a missão de fazer amar a Deus como eu O amo, de dar às almas o meu pequeno caminho. Se Deus realizar os meus desejos, o meu Céu passar-se-á sobre a terra até ao fim do mundo. Sim, quero passar o meu Céu a fazer o bem sobre a terra. Não é nada de impossível, pois que, no seio mesmo da visão beatífica, os Anjos velam por nós. Não posso fazer do Céu uma festa de regozijo para mim, não posso descansar enquanto houver almas para salvar… Mas quando o Anjo tiver dito: «O tempo acabou!» então descansarei, poderei gozar, porque o número dos eleitos estará completo e todos terão entrado na alegria e no descanso. O meu coração estremece com esta ideia…».
Padre Manuel Reis

